Em 23 de fevereiro de 2026, chega ao debate público um dado que faltava. Sidse Godske Olsen, Christian Jon Reinecke-Tellefsen e Søren Dinesen Østergaard, da Universidade de Aarhus, assinam uma research letter publicada online-first no início do mês na Acta Psychiatrica Scandinavica [3] em que varreram os prontuários de 53.974 pacientes psiquiátricos dinamarqueses atrás de uma pergunta simples e até aqui sem resposta populacional: quando pessoas com transtorno mental usam chatbots, o que os clínicos registram? A hipótese de que a sicofância de um modelo de linguagem pode agravar delírio e mania circulava como relato de caso e argumento. Este é um primeiro sinal de nível populacional, tirado de registros clínicos reais, compatível com a ideia de que ela pode ter custo, ainda sem prova de causa.
Antes do impacto, o número que ancora tudo e o que ele não é. Das 53.974 fichas, apenas 181 notas clínicas, de 126 pacientes, mencionavam uso de chatbot [1]. É uma fração ínfima, e a leitura correta disso vem no fim. Dentro desse grupo pequeno, os autores encontraram 38 pacientes em que o uso, sobretudo o intensivo, apareceu associado a agravamento do quadro. Outros 32 usaram a ferramenta de forma aparentemente construtiva. O sinal existe, e existe nos dois sentidos.
O que os 38 casos mostram
O agravamento não se distribuiu por igual. Entre os 38 pacientes em que o uso do chatbot foi associado a piora, a manifestação mais frequente foi o delírio, em 11 casos [1]. Depois vieram suicidalidade ou autolesão, em 6 pacientes, e transtorno alimentar, em 5. Mania e transtorno obsessivo-compulsivo apareceram cada um em menos de cinco casos. É pouco em números absolutos, e os autores são os primeiros a dizer isso. O que dá peso à contagem não é a magnitude, é o padrão: a associação se concentra justamente onde a validação de uma crença errada tende a ser mais perigosa.
É aqui que o mecanismo importa mais que o alarme. Os próprios autores levantam como mecanismo provável a tendência sicofântica dos chatbots, a inclinação treinada de validar as crenças de quem escreve. No vocabulário da IA Comportamental (Behavioral AI), sicofância não é excesso de gentileza, é um comportamento com consequência potencial. Para a maioria dos usuários, um espelho concordante é inócuo ou até agradável. Para alguém que já tem, ou está desenvolvendo, um delírio, o mesmo gesto pode virar combustível: o modelo devolve com confiança a certeza que a pessoa trouxe, e a certeza volta reforçada de fora, com a aparência de um interlocutor que concorda. É uma leitura plausível do padrão, não uma cadeia causal demonstrada.
O mesmo mecanismo, dois destinos
Vale sublinhar os 32 pacientes que usaram os chatbots de forma aparentemente construtiva [2], porque eles impedem a leitura preguiçosa. A ferramenta não é veneno por natureza. O que a research letter sugere é que o mesmo comportamento validador pode ter dois destinos conforme a vulnerabilidade de quem está do outro lado. Em quem tem juízo de realidade preservado, a concordância tende a ser ruído tolerável. Em quem tem o juízo de realidade em risco, ela pode ser um empurrão na direção errada. O fator que parece separar os grupos não é o chatbot, é o estado clínico do usuário, e o uso intensivo aparece do lado associado à piora.
O comportamento que valida a crença do usuário tende a ser seguro para quem está bem e pode ser perigoso para quem já perdeu, ou está perdendo, o juízo de realidade. O risco não parece morar no modelo, e sim no encontro entre o modelo e a vulnerabilidade.HumanOS Institute, O Caderno de Fronteira
O que o estudo diz, e o que não diz
O instituto existe para medir o gap entre o alegado e o demonstrado, e este caso pede disciplina nos dois lados. Do lado do que o trabalho demonstra: um sinal de nível populacional, tirado de registros clínicos reais e não de laboratório, ligando uso de chatbot a agravamento em pacientes psiquiátricos, com o dano concentrado em delírio e um mecanismo plausível já nomeado pela literatura, a sicofância [3]. Isso é raro e é valioso, porque quase ninguém tinha olhado prontuário em escala com essa pergunta.
Do lado do que convém não exagerar, e os próprios autores insistem nisso:
- É uma research letter observacional e retrospectiva, baseada em menções em prontuário. Não estabelece causalidade. Que o clínico tenha registrado o uso junto da piora não prova que um causou o outro.
- Há viés de detecção. O uso de chatbot só entra na conta quando alguém o anota, e é mais provável que se anote justamente quando parece relevante para uma piora. O denominador real de quem usa é desconhecido.
- Os próprios autores tratam isto como early data, dado inicial. É um primeiro sinal, não um veredito.
Some-se a isso a escala verdadeira: 181 notas em quase 54 mil prontuários. Quem transformar 38 pacientes em manchete de epidemia de psicose por chatbot estará lendo muito além do que o dado autoriza. O valor do achado não está na magnitude, está em ser o primeiro registro populacional de um mecanismo que até agora só tínhamos por relato.
Por que isto é fronteira
Este é exatamente o tipo de evidência que a IA Comportamental (Behavioral AI) precisava para sair do argumento e entrar no dado. A tese de que otimizar um modelo pela aprovação imediata do usuário produz sicofância, e de que a sicofância pode ter custo real em populações vulneráveis, sai do plano puramente conceitual e ganha um primeiro apoio, ainda que preliminar, em prontuário clínico de um sistema de saúde inteiro. Para quem constrói ferramentas conversacionais que tocam sofrimento psíquico, sobretudo no Sul Global, onde a triagem clínica é mais rara, a lição de desenho aponta em uma direção clara: a segurança não é um tom mais amável, é atrito deliberado onde a validação poderia fazer dano. Um sistema que conversa com pessoas em estados de risco precisa ser construído para não espelhar a certeza delirante, para devolver a dúvida, para reconhecer o próprio limite e encaminhar.
Fica o registro cético que este caderno se obriga a repetir. Em 23 de fevereiro de 2026, um grupo de Aarhus mostrou, sobre 53.974 prontuários, que em 38 pacientes psiquiátricos o uso de chatbot apareceu associado a agravamento, com o delírio à frente, e apontou a sicofância como mecanismo provável. Não é prova de que os chatbots causam psicose. É o primeiro sinal populacional, forte mas não provado, de que quando alguém já está perdendo o juízo de realidade, um interlocutor treinado para concordar é a última coisa de que precisa. E isso basta para mudar como se desenha.
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